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As cores

A origem dos nomes das cores

17/ago/09

* Por Mário Eduardo Viaro

As cores foram usadas pela linguística para demonstrar quão diferentes são as línguas, que segmentam o mesmo espectro de formas distintas. Embora do ponto de vista sincrônico sirvam para separar bem os sistemas, do ponto de vista histórico são uma ponte para uni-los.

A palavra cor do português vem de colorem, acusativolatino da palavra color. O "l"intervocálico do termo latino desapareceu em português, como acontece com outras palavras: dolorem > dor, calentem > quente, mas não na sua parenta próxima, no espanhol: color, dolor, caliente.

A perda desse som, bem como de outras dentais (n, d), fez Paulo Rónai (1907-1992) lembrar em seu livro Como aprendi o português e outras aventuras que, no seu aprendizado da língua, supunha que nossa língua era latim falado por crianças ou velhos desdentados.

Esse "l"contudo permanece em colorido, incolor, dolorido, doloroso, caleifação etc. e outras tantas palavras, provindas ou de variantes de fronteira, ou do próprio castelhano, ou ainda de aportuguesações do latim. Basta lembrar que corado equivale ao espanhol colorado, que em muitas regiões de fala hispânica significa simplesmente "vermelho". Aliás, é do espanhol colorado, com a típica queda do d dos particípios, que nasceu o nosso colorau, corante proveniente do urucum, a mesma planta usada pelos índios em suas tinturas.

Mar roxo ou Mar Vermelho

Mas alguém poderia lembrar que "vermelho" em espanhol também se diz rojo, palavra próxima do nosso roxo. A palavra portuguesa aparece com o sentido espanhol nos Lusíadas de Camões, várias vezes empregada para o Mar Roxo, que hoje chamaríamos Mar Vermelho. Cumpre lembrar que o sentido português de roxo é bastante particular, pois o étimo latino russeus (ou russus)"vermelho escuro" gerou também o italiano rosso, o catalão ros, o romeno rosu, tendo migrado inclusive para o grego moderno roúsos e para o servo-croata rus. Não tem, contudo, nada a ver com a palavra russo, pois facilmente se faria uma associação fantasiosa com a cor tão cara ao antigo regime soviético. Coincidências surpreendentes da história.

Outra coincidência é a palavra francesa para vermelho, rouge, que viria do latim rubeus "avermelhado" (como o catalão roig, o espanhol rubio, o português ruivo). Enquanto russeus migrava do vermelho para o roxo, rubeus se situava em algum ponto entre o vermelho e o alaranjado. No primeiro caso também temos a púrpura (cf. inglês purple), originalmente o nome de um molusco que produzia uma tintura, já usada pelos fenícios e, por metonímia, utilizado para os tecidos e para a cor.

Nomes mais eruditos para essa cor seria puníceo ou tírio, referentes ao povo púnico (ou fenício) e à sua grande cidade de Tiro. Outro animal utilizado em tinturas é a cochonilha, inseto que produz uma cor próximo ao escarlate, carmim ou carmesim. O nome latino desse inseto coccum dará uma palavra latina para "escarlate", coccinus, representada hoje no grego moderno kókkinos e nos dialetos romanches suíços: cotschen ou tgietschen. A palavra portuguesa vermelho vem do latim vermiculum, literalmente "pequeno verme", devido a esse inseto.

A palavra escarlate aparece no latim medieval apenas, scarlata, provavelmente de origem árabe, trazida na Pérsia. A palavra carmesim é outra palavra persa, também via árabe. Em turco, "vermelho" se diz kirmizi. Já a palavra carmim, de origem francesa, tem a origem mais obscura.

Muitas outras cores provêm de metonímias das plantas, animais ou outros seres: em rosa, laranja, cinza, violeta, isso é evidente. Em marrom, nem tanto: o étimo é o francês marron que quer dizer "castanha" (por isso, o legítimo marron glacé é feito de castanhas). Também grená vem do francês grenat, antigo nome para a romã (atualmente grenade). O lilás é o nome de uma planta. O ocre, palavra proveniente do francês, é uma palavra grega para "argila".

Cinéreo, palavra culta para "cinzento”

Muitas vezes essa referência é indireta, mas a palavra está na raiz de derivações: alaranjado, prateado, dourado, rosado, cinzento, acinzentado, encarnado, castanho. Menos comuns seriam cinéreo, palavra culta para "cinzento" (a palavra de onde deriva seria cinis, cineris "cinza"), argênteo para "prateado" (derivada de argentum "prata") ou cerúleo para "azul" (derivada de caelum "céu"). O que ocorre é que essas referências podem ser ainda mais secundárias: azul-pavão, azul-celeste, azul-marinho, azul-turquesa. Enquanto verde-musgo é o verde característico dessa planta, azul-bebê lembra a cor da roupa (e pode ainda ser avaliado como azulzinho-bebê).

Gradações de metonímia

Outras metonímias se referem a nomes de tecidos ou de outros produtos, ou então do local onde eles eram produzidos. Por exemplo, bordô vem do nome da cidade de Bordeaux, onde se produziam vinhos supostamente com essa cor. A palavra vinho também pode ser usada como o nome de uma cor.

Das cores de origem diretamente latina, temos negro, que provém do latim nigrum, acusativo de niger (espanhol negro, italiano nero, francês noir, romeno negru). O interessante é que, apesar de o negro ser uma designação das cores mais conservadoras, seu sinônimo, ater, praticamente desapareceu. Somente sobrevive na palavra erudita atrabiliário, decalque erudito da palavra grego"melancólico", ou seja, termo médico para quem sofria com a negrura (latim ater, grego mélas, mélanos)de sua bílis (latim bilis, grego kholé). O termo grego para "negro" é um elemento de formação de palavras cultas: melanina, melanocéfalo "que tem cabeça negra".

Já seu oposto, branco, se dizia em latim albus (daí, os termos eruditos alvo e seu derivado albino). A palavra branco é germânica e significava originalmente algo polido, reluzente, tanto que blank em alemão tem ainda hoje esse sentido e é usado também quando falamos de "armas brancas". Pode parecer intrigante por que uma palavra germânica tenha desbancado, na Idade Média, uma palavra latina: albus só permaneceu como termo normal para "branco" no romeno (alb), nas demais línguas, vemos a palavra germânica (espanhol blanco, francês blanc, catalão blanc, italiano bianco). Somente a estilística da gíria e sua ênfase pode explicar isso. Hoje recorreríamos a derivações: superbranco, branquinho, branquelo etc. Para quem ainda continua estranho o étimo, basta observar como pink é usado no português no lugar de rosa ou cor-de-rosa.

Verde provém do latim viridem

Outra palavra que se conservou bem do latim é o verde, que provém do latim viridem (espanhol verde, francês vert, italiano verde, romeno verde). O latim glaucus só sobreviveu na palavra erudita glauco (aliás, já era culta em latim, pois provinha do grego glaukós), que é também um nome próprio, Glauco, obviamente por metonímia à cor dos olhos. Também Flávio é um nome próprio de inspiração nas cores: provém de flavus latino, que significava "amarelo", a cor dos cabelos, a bem entender.

A palavra amarelo em português proviria, se a etimologia está certa, de um derivado de amarus "amargo" no diminutivo. Estranha sinestesia que faz referência ao amargor da bílis dos ictéricos... Essa etimologia sinestésica está bem próxima contudo da base de termos humorísticos: rosa-choque, vermelho-cheguei, verde-dor-de-barriga, cor-de-burro-quando-foge, entre outros. De qualquer forma, a designação dessa cor é muito inovadora nas outras línguas: no espanhol amarillo, teríamos o mesmo problema que o português, o francês jaune viria do latim tardio galbinus "verde claro" (donde também o romeno galben e o italiano giallo). Alguma conexão deve haver entre o galbinus latino e o gelb alemão ou o yellow inglês: o termo latino deve ter provindo de alguma língua germânica. Novamente, um empréstimo.

Também pouco conservadora é a palavra azul, que em latim se dizia caeruleus (que gerou o termo culto "cerúleo", já citado). De origem árabe, a palavra azul remonta ao termo persa para a pedra preciosa conhecida como lápis-lazúli. De qualquer forma, espalhou-se para o espanhol azul e para o italiano azzurro. O romeno albastru é uma derivação de albus latino e significava originalmente "esbranquiçado". O francês bleu e o catalão blau remontam a uma palavra germânica (cf. alemão blau, holandês blauw, norueguês blå, islandês blár). Essa palavra germânica entrou no francês, que é uma língua românica, e, por meio dela, entrou novamente numa língua germânica, o inglês, sob a forma blue. As cores são uma prova viva de palavras que vão e vêm. O que importa na comunicação é a expressividade.

* Mário Eduardo Viaro é professor de Língua Portuguesa pela USP, autor de Por trás das palavras: manual de etimologia do português (Globo: 2004) e colaborador do Beco das palavras, do Museu da Língua Portuguesa.

Veja também:

- A cor como informação

- Significado das cores nem sempre é o mesmo entre vários povos

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